Os Livros que Devoraram o Meu Pai - Afonso Cruz

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Mal chegou agarrei-me a ele, e é um livro tão pequenino e bom de se ler, que o terminei num instante, nem passou pelos livros em leitura.
 
Diz Elias Bonfim, personagem-narrador com 12 anos - e 72 no epílogo - que o pai se perdeu num livro, e aos doze anos embranha-se nos livros do pai na esperança de encontrá-lo, persegue-o de clássico em clássico, cruzando-se com as personagens fora da história, um bocadinho como se espreitassemos o que seria a vida das princesas depois do "felizes para sempre". A par, temos uns apontamentos sobre a sua vida de rapaz de 12 anos, e também esses são feito, em grande parte, das histórias chinesas do seu amigo Bombo.  A história é menos sobre o pai de Elias do que sobre a forma como ele proprio se deixa perder - ou achar - nos livros, e sobre como a vida é uma história.
 
É um livro sobre livros, sobre o fascínio da leitura e, tenho que confessar, deixou-me a sorrir muitas vezes porque também eu, quando era miúda, me perdia assim como o jovem Elias (e o seu pai) dentro dos livros, pelas histórias adentro, esquecida do mundo e sempre contrariada por ser obrigada a regressar à realidade. Elias chega tarde ao jantar, eu levava o livro para mesa e era obrigada a pousá-lo. Ainda agora o faria, por vezes. Talvez um dia um dos meus filhos pudesse escrever um livro sobre os livros que lhe devoraram a mãe, senão os que leu, pelo menos os que quis escrever.
 
A linguagem é leve, aqui e ali poética, bem humorada e muito humana, e as referências a autores e livros são inúmeras. Se há alguma coisa a apontar, poderia ser o facto de, para o leitor menos ávido ou mais jovem, poder tornar-se um pouco denso nesse sentido - lembro que está recomendado no LER+. Para quem gosta tanto de livros, mesmo sem os ter lido todos é muito engraçado. O livro oferece, aliás, duas leituras, uma mais simples para os leitores mais jovens, e uma mais complexa para os mais velhos, mais experientes, que conhecem os autores, pelo menos de nome, e conseguem interpretar as inúmeras metáforas e alusões que enriquecem o livro.

 Este é muito pequenino, foi uma boa estreia, mas vou comprar A Boneca de Kokoshka, que de qualquer forma já estava nos meus planos.
 
"Dizia, caro Bonfim, que o ser humano tem esta necessidade, quase tão grande como de comer ou de respirar, de colocar a sua individualidade, a sua diferença e caráter único naquilo que faz. Isso vê-se nestes livros humanos  [refere-se a Fahreneight 451, de Ray Bradbury, e especificamente a algumas personagens que, em vez de esconderem os livros, os decoraram e tomaram como nome o nome do livro]. Nenhum deles, neste momento, seria capaz de contar a mesma história que foi escrita em livro. Todos eles se tornaram obras abertas, vivas. Vão evoluindo com os tempos, não estão paradas no papel, já vêm com a interpretação do leitor.
- Portanto traem o original.
- Isso. Mas não vejo como uma traição."
pág. 116

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